Pensações

Pensações

quarta-feira, 28 de junho de 2017

É “legal?”


Muito me causam reflexão os símbolos utilizados nas redes sociais. Percebo que cada vez mais, os criadores e fundadores dos programas e aplicativos se esforçam para aumentar o número de imagens padronizadas que nos causam o “favorecimento” de emudecer.

Nas trocas de mensagens substituímos frases, conjugações e palavras por uma “carinha”, uma “boquinha” ou um simples “legal”. E nesse ínterim, colocamos nossas palavras na posição passível da interpretação do outro.

Há poucos anos atrás, emudecíamos, nesse campo, nas despedidas de e-mails que, de tão atenciosas que se tratavam, não tinham tempo para escrever por inteiro “atenciosamente”, reduzindo-as a um “atc” seco, vazio e mentiroso.

Assim também com os “abcs” e os “bjs”.

Ah...os bjs..Amigo querido de Belo Horizonte criou uma teoria sobre as despedidas com os “bjs”, ou seria “bj” ou “bjo” ou “bjos”, ou, até mesmo, “beijos”? Pare e pense. Cada um na sua forma confortável de não dizer (escrever) o que realmente se quer transmitir. O que dá, inegavelmente, ao outro, o direito de interpretação plena e, ao meu amigo, o de criar uma teoria.
Bem nos dias atuais, nos fartamos com emoções simbólicas digitáveis, mas existem as de preferência, prova encontra-se em seus emotcons preferidos o famigerado “legal”. É, ele mesmo, aquele legal de dedão em riste.

Indecifrável “legal”.


Esse que samba na cara do receptor a mais pura intenção de descaso. O cúmulo da mudez. O lugar de resposta menos empático e mais preguiçoso. Aquele que diz claramente o que os medíocres mais usam: a faceta de não se comprometer.

terça-feira, 29 de março de 2016

ESSE OLHAR


Ela havia passado o dia mais animado dos últimos muitos dias de sua vida.
ESSE OLHAR


Embora seu corpo pulsasse e ela sentisse em cada célula o desejo quase incontrolável pelo prazer artificial, por si mesma e quem ama, suportou, naquele dia de sol, todas as dores, todos os vazios facilmente preenchidos com um telefonema apenas, e se distraiu com afazeres domésticos a fim de agradar seu amor.

Já sentindo a sensação da doença, que em dias de euforia não lhe deixa dormir, tentou afastar  o pensamento da noite que se aproximava e que, nesses dias lhe trazia desespero, brigas, lágrimas, opressão e dor.

Aquele dia começou bem, haveria de terminar bem.

Gastou todas suas energias em compreender, ser paciente, amiga, não julgar, companheira, mostrar-se apaixonada e determinada naquela relação.

Como um relacionamento não é feito apenas de beijinhos, chocolate, ciúmes e orgasmos, ela usou a razão para resolver uma questão racional. Foi para sala ler enquanto ele descansava no quarto.

Ávida pelo sono que não chegava. Precisava de um olhar de “tá foda, né? Eu te entendo. É só uma fase.” Mas recebeu um olhar de reprovação por estar acordada. A contra gosto sim, sentindo dor e tristeza também.

Julgar a dor alheia através de nossas lentes é cruel.


“Mas afinal o que é rock n' roll?
Os óculos do John, ou o olhar do Paul?”
                                                                     Humberto Gessinger

Pensemos...sintamos....

domingo, 20 de dezembro de 2015

Colha você mesma seu tomilho


Não deixe, não deixe
Bela moça
Sabida ou desapercebida

Não deixe, não deixe
Que o que dizem
Faça morada em sua essência

Diga você mesma
O que pensas?
Qual verdade em ti habita?

Pense antes de ter posição
O sutiã que aqui tiras
Não é o mesmo de lá


O tempo é feito o mar
Traz águas de tempos longínquos
Mas nunca a mesma água


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Enfim, uma possível definição...


 
A sensibilidade rente ao arrepio nos coloca em contato de carne viva com o mundo e o viver. Nada passa despercebido por nossos olhos sem fazermos dezenas de conexões, sem procurar a essência do que estamos tratando e a de nós mesmos em cada momento.

Sentir com toda força, mergulhar nas coisas e nas pessoas com a alma receptiva, a todo momento, requer uma intensidade de energia maior.

Essa energia desprendida – para enxergar além do mar; para captar o coração alheio com um leve toque; para sentir que manga tem gosto de manga , mas, um quêzinho de dezembro, lá, na última nota; saber o cheiro do Natal e entender as entrelinhas na prosa com um ancião; saber que café tem cheiro de todas as oportunidades do mundo – que nos entrelaça em detalhes mínimos, nos exaure também. Suga-nos, nos engole, nos cansa e tiras as forças.

Bom seria um dia sequer possamos olhar um lago e ver ali apenas um lago.

Sensibilidade se adquire, mas quase inevitavelmente se nasce com ela. Não há escolha.

Sensibilidade é sentimento em demasia.
 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

UMA NOVA HISTÓRIA

 
             Ela sempre acreditou que para o amor acontecer havia uma lógica bem definida: atração, química, paixão e, finalmente, amor.
            Nunca teve dúvidas. Se acontecesse a química, a paixão era certa e, assim, foi acreditando. De tanto acreditar, tornara-se verdade, e verdade não muda. Verdade é verdade. Quem vai falar que não?
Quando não rolava química, nem se ocupava com uma segunda chance. Ignorava o poder das circunstâncias e friamente encaixa
va tudo na sua lógica de amor.
        
           Não que tudo tivesse que virar amor. A história podia acabar em algum ponto e, ainda assim, ter valido à pena. Uma nova atração começava e ela, dona da verdade infinita, já sabia, despretensiosamente, as fases e as possibilidades. E assim seguia balançando seu vestido vermelho no caminho do amor em sua vida.

          De uma discrição notável que a fazia absoluta com seus pertences, guardados timidamente debaixo de suas saias, entregou-se, no decorrer do caminho, a uma confissão, tal qual os fiéis aos sacerdotes. Sentiu-se segura para levantar as saias e, quase como num suspiro, confessou e dividiu. Já não era mais absoluta, mas ainda não percebera. 

         E acreditando cegamente na fórmula: atração, química, paixão e amor, não percebia-se prisioneira.
        
        Nesse dia nublado e frio de uma confissão sussurrada, ele desenhou um sol, uma árvore e uma flor. E ela sentiu seu coração se aquecer, cantarolou umas canções e se perfumou de flores.
         
        E entre confissões, doces e azuis, se envolvia sem perceber. "A lógica não era essa afinal ". Segura de suas verdades, ele abrira a porta de sua prisão com chaves de girassóis e, bem de leve, conduziu-a a sentir seu cheiro e tragar seu gosto. 

        Perdida entre tantas sensações, mesmo com medo de desconstruir sua lógica de amor e perder suas verdades indestrutíveis, a liberdade era irresistível. E ele a libertou, bagunçou suas certezas, revirou seu coração e, hoje, encontra-se aqui, nada absoluta, oferecendo-lhe suas anáguas e confessando baixinho: eu sou apaixonada por você.