Pensações

Pensações

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Você não é eternamente responsável pelo que cativas

"Você é eternamente responsável pelo que cativas." - O Pequeno Príncipe

Essa máxima de Antoine Saint-Exupéry é repetida em diversas ocasiões com o intuito de expressar a importância que devemos dar às pessoas que passam pela nossa vida. Mas ela me soa um tanto escravagista. Tudo bem, o cara mandou bem em diversas citações do referido clássico, mas pra essa aí eu torço a boca.

Partilhamos em uma sociedade que nos solicita a simpatia, o bom trato com o próximo, a educação como princípio de relações (bom, pelo menos assim entendo) e, naturalmente, vamos conquistando pessoas, colegas e amigos (para resumir) em nossas trocas. 

Aí, numa terça-feira a tarde, você é apresentado a alguém que não lhe causa simpatia alguma, mas a recíproca não é verdadeira.

Então, por ter sido gentil, atraído a simpatia alheia, cativado alguém, até mesmo sem querer, você será "eternamente responsável" por essa pessoa? Como se, a partir daquele momento, você terá que prestar atenção em toda sua conversa, atender ao telefone mesmo sem querer, receber em sua casa, responder ao whatsapp e sei lá mais quantas invasões disfarçadas e, ainda, eternamente?

Senhor digníssimo Antoine Saint-Exupéry, cujo livro li várias vezes e admiro, eu não sou responsável por tudo que cativo, nem hoje, muito menos eternamente. Caso contrário, teria que chamar para o café da tarde todos os trabalhadores da obra aqui do lado.

Não sou obrigada! 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

É “legal?”


Muito me causam reflexão os símbolos utilizados nas redes sociais. Percebo que cada vez mais, os criadores e fundadores dos programas e aplicativos se esforçam para aumentar o número de imagens padronizadas que nos causam o “favorecimento” de emudecer.

Nas trocas de mensagens substituímos frases, conjugações e palavras por uma “carinha”, uma “boquinha” ou um simples “legal”. E nesse ínterim, colocamos nossas palavras na posição passível da interpretação do outro.

Há poucos anos atrás, emudecíamos, nesse campo, nas despedidas de e-mails que, de tão atenciosas que se tratavam, não tinham tempo para escrever por inteiro “atenciosamente”, reduzindo-as a um “atc” seco, vazio e mentiroso.

Assim também com os “abcs” e os “bjs”.

Ah...os bjs..Amigo querido de Belo Horizonte criou uma teoria sobre as despedidas com os “bjs”, ou seria “bj” ou “bjo” ou “bjos”, ou, até mesmo, “beijos”? Pare e pense. Cada um na sua forma confortável de não dizer (escrever) o que realmente se quer transmitir. O que dá, inegavelmente, ao outro, o direito de interpretação plena e, ao meu amigo, o de criar uma teoria.
Bem nos dias atuais, nos fartamos com emoções simbólicas digitáveis, mas existem as de preferência, prova encontra-se em seus emotcons preferidos o famigerado “legal”. É, ele mesmo, aquele legal de dedão em riste.

Indecifrável “legal”.


Esse que samba na cara do receptor a mais pura intenção de descaso. O cúmulo da mudez. O lugar de resposta menos empático e mais preguiçoso. Aquele que diz claramente o que os medíocres mais usam: a faceta de não se comprometer.

terça-feira, 29 de março de 2016

ESSE OLHAR


Ela havia passado o dia mais animado dos últimos muitos dias de sua vida.
ESSE OLHAR


Embora seu corpo pulsasse e ela sentisse em cada célula o desejo quase incontrolável pelo prazer artificial, por si mesma e quem ama, suportou, naquele dia de sol, todas as dores, todos os vazios facilmente preenchidos com um telefonema apenas, e se distraiu com afazeres domésticos a fim de agradar seu amor.

Já sentindo a sensação da doença, que em dias de euforia não lhe deixa dormir, tentou afastar  o pensamento da noite que se aproximava e que, nesses dias lhe trazia desespero, brigas, lágrimas, opressão e dor.

Aquele dia começou bem, haveria de terminar bem.

Gastou todas suas energias em compreender, ser paciente, amiga, não julgar, companheira, mostrar-se apaixonada e determinada naquela relação.

Como um relacionamento não é feito apenas de beijinhos, chocolate, ciúmes e orgasmos, ela usou a razão para resolver uma questão racional. Foi para sala ler enquanto ele descansava no quarto.

Ávida pelo sono que não chegava. Precisava de um olhar de “tá foda, né? Eu te entendo. É só uma fase.” Mas recebeu um olhar de reprovação por estar acordada. A contra gosto sim, sentindo dor e tristeza também.

Julgar a dor alheia através de nossas lentes é cruel.


“Mas afinal o que é rock n' roll?
Os óculos do John, ou o olhar do Paul?”
                                                                     Humberto Gessinger

Pensemos...sintamos....

domingo, 20 de dezembro de 2015

Colha você mesma seu tomilho


Não deixe, não deixe
Bela moça
Sabida ou desapercebida

Não deixe, não deixe
Que o que dizem
Faça morada em sua essência

Diga você mesma
O que pensas?
Qual verdade em ti habita?

Pense antes de ter posição
O sutiã que aqui tiras
Não é o mesmo de lá


O tempo é feito o mar
Traz águas de tempos longínquos
Mas nunca a mesma água


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Enfim, uma possível definição...


 
A sensibilidade rente ao arrepio nos coloca em contato de carne viva com o mundo e o viver. Nada passa despercebido por nossos olhos sem fazermos dezenas de conexões, sem procurar a essência do que estamos tratando e a de nós mesmos em cada momento.

Sentir com toda força, mergulhar nas coisas e nas pessoas com a alma receptiva, a todo momento, requer uma intensidade de energia maior.

Essa energia desprendida – para enxergar além do mar; para captar o coração alheio com um leve toque; para sentir que manga tem gosto de manga , mas, um quêzinho de dezembro, lá, na última nota; saber o cheiro do Natal e entender as entrelinhas na prosa com um ancião; saber que café tem cheiro de todas as oportunidades do mundo – que nos entrelaça em detalhes mínimos, nos exaure também. Suga-nos, nos engole, nos cansa e tiras as forças.

Bom seria um dia sequer possamos olhar um lago e ver ali apenas um lago.

Sensibilidade se adquire, mas quase inevitavelmente se nasce com ela. Não há escolha.

Sensibilidade é sentimento em demasia.