Pensações

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segunda-feira, 16 de julho de 2012

Chefe de Excursão



Inegavelmente ela nasceu para ser a Chefe da Excursão. Ela nasceu e sabia disso. Nessa viagem impura, que vai dar não se sabe onde, a ela não cabia apenas uma cadeira entre tantas outras. De menina já se sabia diferente. De tão diferente, não se sabia sofrida. Sofrida de sofridão. Não tinha para quem contar, tão pouco com quem contar, então fingia e acreditava. Fingia e acreditava.

Cresceu Chefe da Excursão. Aprendeu todas as lições: ser simpática além do possível, sorrir, ser inteligente além da média, sorrir, escorregar de uma cantada com jeitinho, sorrir, levar uma bronca, sorrir, deixar quem ama nos últimos lugares, sorrir, ser desobedecida, sorrir, engolir sapos, sorrir, não ser ouvida, sorrir, sofrer com a indiferença de alguns, sorrir, perder, sorrir e sorrir também (vide facebook). Mas havia o gratuito de sua existência. O carisma, a confiança, o jeito certo de fazer-se ver, o fácil olhar no olho, o forte aperto de mão, o abraço de dois braços, o enigma que atrai, a impostação adequada da voz, o português correto, a palavra certa, o feeling, a criatividade e o sorriso.

Ela não é falsa, é falsete. Não mente, apenas não conta toda a verdade. 

Só que ser Chefe da Excursão o tempo todo, aprendeu ela agora: cansa. Cansa as pernas e as pernadas, os braços e as braçadas, a face e os sorrisos, os lábios e os beijos, a garganta e os gritos, a coluna e a postura, a cabeça e as cabeçadas. Sendo Chefe da Excursão, perdeu todas as paisagens, não aprendeu o caminho, não teve tempo para o lanche, remoeu amarguras sem ter alguém na poltrona ao lado. Estava de costas para a estrada. 

Mas era a Chefe. E ser chefe tem lá seu glamour, oras. Estar no comando é um prazer, um deleite, pura luxúria para sua alma de superior. Mas superior a quem, já que quando a viagem acabar ela não terá mais função, além de descer na mesma estação que todos? 

Ela vai aprender a ser viajante. Dura lição de ser apenas mais um. Só que mais um aproveita melhor o passeio e ela quer vento no rosto, mãos dadas na poltrona, soninho de viagem, quadros verdes de paisagem, falar baixo...vai sentar no banco, aprender a ser melhor.

O que ela nunca deixará de ser mesmo é viúva de Vinicius, Neruda e Jim e algumas coisinhas mais...

4 comentários:

Anônimo disse...

Triste, flor?

Pollyane Schenato disse...

Nada...só na auto-crítica mesmo...pensando....

Anônimo disse...

Você sabe o quanto eu admiro vc e seus textos né linda. Bjo saudade demais. Fernando Mageski

Pollyane Schenato disse...

Obrigada, Fê!!!

Saudade, meu lindo!!!