Pensações

Pensações

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Eu, ela e o livro

Nas últimas semanas deixei-me seduzir por uma mulher. Confesso. Entreguei-me à ela. Entreguei-me assim como se entrega os mortos à terra, sem volta, sem nenhuma chance de retorno. Conheço-a faz tempo. A primeira vez que a vi ainda estava na faculdade, tempo de amores e confusões, amigas e confissões, desejos nada reprimidos.

Notei sua presença de longe, no entra e sai da sala de aula, entre uma e outra explicação do professor de História da Arte. Naquele tempo apenas a decorei. Nada comparado à sensação quase dramática de agora.

Depois disso veio uma música, uma música que me lembrava ela. A intérprete cantava com uma voz baixinha. Parecia que sussurrava essa canção em meus ouvidos ainda pouco experientes. Nessa hora, quando lembrava dela, mais o cantar pequeno, mais um violão calminho, sentia arrepios. A música que me lembrava ela fazia-me ver cores, todas as cores nada pastéis.

Foi uma paixão que cresceu pouco a pouco. Por vezes, ainda resistente à sua presença em minha alma, a procurava pela internet. Um contato quase que de mentira, distante. Eu sabia, naquele tempo, seria melhor assim.

Acho que ela não percebia o incômodo que me causava. Essa mulher, que hoje está na minha vida, já me causava, tempos atrás, atração. Ela não suspeitava dos poemas que escrevia pensando nela, não... ela não devia saber. Mesmo hoje com nosso contato íntimo, não tenho coragem de os mostrar a ela. Ficaria corada e no mais, estou tão extasiada por esse amor, que prefiro poupar-me de maiores emoções. As que abrigam-se em mim, agora, já são o bastante.

O mais engraçado é que ela quem me cortejou. Eu, apenas eu, apenas uma menina tentando fazer alguma coisa a mais do que o óbvio, fui cantada e laçada por ela. Seu olhar constante em minha direção, nos momentos que nos encontramos, me angustiam. Talvez por isso ela olhe tanto para mim. Um pouco má, de uma maldade que todas as mulheres deveriam ter, não perderia a oportundiade de me confundir, às vezes, debochar.

Na primeira noite que ficamos juntas, ela enroscou-me em seu xale. A cada trama do tecido, descobria-me mais ela que eu. Seu perfume não era agradável. Nem o dela, nem o do xale. Mas isso foi o que menos me importou naquele momento. De uma coragem primogênita, ela me falou de suas tristezas e amarguras e de como fazia para que suas tragédias não fossem a única assinatura de sua vida.

Curiosamente, trouxe-me um espelho de presente. Nesta noite, dormimos, as duas, exaustas de tanto nos amar. Nos amamos sob o olhar fotográfico deste espelho que a fez, tantas vezes, e quantas mais poderiam ser, três. Ela, o espelho e a tela.

Ela nunca mentiu para mim. Sempre diz que terá que ir embora. E eu sei que ela irá. Imagino eu, logo, neste final de semana que se aproxima. "Outras pessoas me esperam", sempre diz com o cigarro pendurado no canto da boca. Ontem deu-me uma de suas saias. Para mim, isso foi um sinal de despedida. E de amor também. Era a saia mais rodada, também a mais colorida. Não imagino quantos já a levantaram em seu corpo esguio e desforme. Nem quero imaginar. Não faz diferença. Não a usarei para ela, correria o risco de virar imortal através de suas mãos cheias de anéis, embora pudesse ela, também, enfiar-me-as por debaixo dos panos e fazer-me sentir coisas para as quais ainda não me preparei, arrancar segredos que eu ainda não posso contar. Só depois que devolvê-lo, no final de semana que se aproxima, o livro de capa colorida intitulado Frida Kahlo, vestirei a saia que ganhei e usarei-a para sempre, em cada composição, em toda poesia e nos quadros que ainda vou emoldurar pela vida. .

2 comentários:

Rute Morais disse...

Como assim????????????????

Claudia disse...

Também quero saber!!!!!!!