Pensações

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sozinho em sua companhia

Ontem eu assisti pela milésima vez o filme ‘Divã’, baseado numa obra da Martha Medeiros, escritora que eu adoro e sempre recorro a seus textos nos momentos de dúvidas, quando quero rir um pouco da vida ou quando preciso de uma pancada de realidade (aliás, essa eu sempre estou precisando).

Como faço análise há anos e sei bem o que uma boa sessão com seu terapeuta pode fazer por você, penso que o filme me toca um pouco mais que a outras pessoas. Acabo me identificando mais com a personagem principal, a Mercedes, vivida por Lílian Cabral, que tem uma profissão normal, um casamento normal, filhos normais, uma amiga normal, mas mesmo assim procura um terapeuta (embora a vida dela não se pareça em nada com a minha).

A primeira vez que assisti, ainda estava no cinema e fui acompanhada de um namorado da época. Vivi tão intensamente aquela história que o riso e o choro se intercalavam de forma absurda. Mas ainda tive que me conter...estava em público e eu tenho certeza que até hoje ele (o namorado da época) não entendeu nada da minha reação.

Ontem foi ...pior. Chorei e gargalhei tanto que até cheguei a pensar se não havia me desapercebido no caminho de volta pra casa e tomado alguma droga. O filme é o retrato da vida.

Mas eu falei isso tudo pra falar de uma partezinha só, que sempre me chamou a atenção. Quando a Mercedes se casa, ainda jovem, o marido a leva vestida de bolo de casamento no colo para o quarto e a joga na cama (até aí, tudo dentro do protocolo), só que, ao invés dele falar o famoso “enfim sós”, ele fala: “enfim juntos”. Tão legal, né?! Porque, na verdade, quando nos casamos, esperamos estar, enfim, juntos e não “enfim, sós”. A Mercedes acreditou.

Depois de vinte anos de casamento, Mercedes percebeu que ela estava acompanhada, mas sozinha. E é isso que me assusta. Eu vejo pessoas falsamente acompanhadas por todos os lados. É a amizade de um só, quando você está certa que tem uma amiga, mas na verdade a amizade é só sua. É a sociedade de um só, a parceria de um só, a casa de um só, e o pior: a relação amorosa de um só (namoro, casamento).

Muitas vezes passamos anos vivendo sós. Demoramos a perceber quando isso acontece (embora o tempo seja relativo) porque dói demais descobrir que se nosso barquinho afundar, não vamos ter na mão de quem segurar ou se ele nos levar a uma ilha linda de morrer, não vamos ter com quem dividir aquele olhar assustado de admiração. Deixamos passar despercebido a falta de atenção do companheiro com o nosso cabelo, o esquecimento do aniversário de namoro, o dormir sem dar um beijo de boa noite, o choop cada vez mais freqüente com os amigos e o número diminuto de jantares conosco. Fazemos isso para não ter que ver que estamos sozinhos.

O legal é, quando reconhecermos que estamos desperdiçando um espaço em nossa vida que está vazio e ocupado ao mesmo tempo, sejamos sinceros com nós mesmos e tratemos de, se não conseguirmos estar acompanhados de verdade, pelo menos estar sozinho em companhia diferente. Pelo menos pode ter um sabor que você não conhecia.

4 comentários:

Claudia disse...

Qdo vc se casar, acredito que vai entender mais ainda sobre o filme. Ontem assisti pela primeira vez e amei, me diverti muito com esse filme, tava precisando disso. Nada melhor do que começar o ano, dando umas boas gargalhadas....
PS: Quero repicar meu cabelo. kkkkkkkkkk

Pollyane Schenato disse...

Repica! Repica! Repica! Repica!....Frenética...kkkkkk

Rute Morais disse...

Com certeza a solidão não é uma boa companhia... Mas ela acompanhada fica insuportável...nos mata a cada dia...
por isto resolvi repicar...

Evelyne de Oliveira disse...

E isso dói na alma de uma maneira reveladora e librtadora ao mesmo tempo. Amo vc, mesmo quando me dá choques de realidade!!!!