Pensações

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terça-feira, 4 de março de 2008

O presente que o amigo do meu pai me deu

Era uma daquelas tardes de folga do meu pai, que trabalhava no esquema de turnos numa empresa da região. Morávamos em um barraco nos fundos da grande casa que estava em reforma para abrigar minha família que viveria, ali, bons anos de harmonia.
O barraco era muito pequeno, mas cabíamos lá, eu, minha mãe, meu pai e minha irmã. Vivemos ali por dois anos.
Naquela tarde de folga meu pai me chamou ao quarto, único do barraco, onde a mobília se resumia a uma cama de casal, uma de solteiro e uma cômoda. Cinco anos eu tinha àquela época.
Pai ajeitou-se aos pés da cama e me puxou ao colo, sempre paternal e generoso. Suas pernas, tão compridas para mim naquele momento, mal cabiam entre a cama e a cômoda. Com um sorriso no rosto ele me disse: - Filha, um grande amigo meu está indo embora para Vitória, mas ele gosta muito de você e lhe deixou um presente – naquele momento não desconfiei que se tratava do presente mais importante da minha vida.
Na última gaveta, emaranhado a uma porção de roupas, estavam lá, dois embrulhos de presente. Antes que eu abrisse, com a curiosidade extasiante das crianças ele alertou-me: - Não diga nada à sua irmã (Pâmela, na época, tinha três anos e já estava bastante crescidinha para entender as coisas do mundo), ela poderá sentir ciúmes e o presente é pra você.
Um livro. Um perfume.
Esses eram meus presentes. Mas havia um agravante: eu não sabia ler aos cincos anos de idade, principalmente um livro de texto corrido, sem gravuras e espaçamentos. O perfume, do qual o frasco recordo-me com perfeição, era de mulher. Mulher adulta.
Diante dos meus olhos, que abrigavam um misto de desinteresse e felicidade, meu pai deixou o recado: - Quando souber ler, lhe entregarei o livro.
Eu, na correria louca das crianças que têm quintal em casa, dei-lhe um beijo e já corri para fora para continuar minha brincadeira tão mais interessante que um livro e um perfume sem utilidade.
Alguns anos se passaram. A grande casa já reformada. Lá já vivíamos eu, minha mãe, meu pai e duas irmãs. Paloma havia nascido. Com a mudança, a compra de novos móveis e o tempo, os presentes do amigo do meu pai se perderam enquanto eu me perdia em livros infantis com figuras que se transformavam à medida que se mexia o livro – uma coletânea de clássicos infantis, presente da minha mãe, recordo-me do cheiro daquela coleção.
Foi quando um dia, na estante robusta da sala de jantar, bisbilhotando, me deparei com o livro ganhado a alguns anos. ‘Pollyanna’. Esse era o nome do livro. O amigo do meu pai deu-me de presente uma estória que tinha o meu nome e que mudou, de fato, a minha história.
Bati a poeira e comecei a ler. Li uma, duas, três, quatro vezes. Infância e adolescência. Lia comendo balas de amendoim, balas essas que não se encontra mais hoje.
Minha xará me encantava, me surpreendia, me causava raiva, me angustiava, me fazia imaginar os verdes campos da casa de sua tia, a doçura do seu olhar, a árvore que ficava à sua janela em um pequeno quarto no sótão.
Depois vieram outros amores. ‘O Guarani’, ‘Dom Casmurro’, ‘O Cortiço’, ‘Senhora’ e tantos outros. ‘Pollyanna’ se perdeu. Em algum lugar, por algum motivo.
Os anos se cumpriram, algumas profecias também. Na grande casa já não moramos mais. Apenas minha mãe e uma tia. A estante robusta de madeira maciça que há anos devolveu-me o livro-presente causava medo. Lá, eu tinha certeza, havia segredos meus de outras épocas, épocas que não gosto de relembrar, sinto saudade.
Hoje, olhei para aquela estante. Nas prateleiras algumas garrafas de bebidas da época em que meus pais ainda eram casados. Abri uma grande porta lateral. Encontrei ali alguns cadernos escolares do ensino médio, algumas cartas de amigas que foram morar fora, alguns cartões de natal do início da década de 90. Agachei-me e abri a porta onde minha mãe guardava muitos livros, lugar por onde eu passeava constantemente em busca de algo para ler.
Para minha surpresa, lá estava: ‘Pollyanna’ – Eleanor H. Porter. Tradução: Monteiro Lobato. Emocionei-me. Era o meu livro, meu primeiro livro, o livro que o amigo do meu pai me deu.
Ao abrir, logo na primeira página, escrito com a letra inconfundível do meu pai: “Pollyane e Dorico” – meu pai chama-se Dorico. Essa junção, que apenas os enamorados fazem, dizia de um momento único. Aquele momento ao pé da cama.
Meu pai não se recorda o nome do amigo. Nem eu. Mas sei que ele me abriu o universo da leitura e onde quer que ele esteja, sempre terá a minha gratidão e o meu amor, tal qual o amor que ele sentiu ao comprar um livro e um perfume para uma menina que talvez nunca mais lembrasse sua feição, talvez nem seu gesto quando se tornasse uma mulher.
Do perfume, não tive notícias, nem àquela época, nem hoje. Mas o livro está aqui, ao meu lado, para sempre...

4 comentários:

rodrilima disse...

ai... ai... e ainda preciso dizer o tanto que me encanta e fascina...

engraçado e te imaginar novinha...

muito bom o texto! (bobagem eu ficar repetindo isso)

beijão

Anônimo disse...

Amiga, então joguemos o jogo do contente....não me chamo Pollyane, mas tenho uma bem pertinho prá alegrar os meus dias.....

beijo,

flor....

Anderson disse...

ai ai ai ... e se eu me apaixonar ehim!!? como é que vai ser ?? rs...
menina , que história linda essa do livro... que maestria em suas palavras e no gesto do amigo de seu pai... esse amigo é responsável tbém pelas emoções que sentimos ao lê-la... ... me identifiquei muito com o texto pois em minha vida tbém tem uma história similar com um violão que ganhei de um amigo de meu pai tbém... depois te conto pessoalmente.
Ah!! ia me esquecendo... vc foi genial ao reverenciar a atitude do amigo de seu pai e não primeiro livro... os livros tem vida própria. Quero ler o seu...
Bjo

Anderson Nazareth

Anônimo disse...

Polly,

Linda a história, realmente a gente emociona, acho que vc devia procurar este amigo e dar-lhe um grande e terno abraço, ele merece!!!

Bjos,
Raquel