Pensações

Pensações

terça-feira, 25 de maio de 2010

Andando sozinha

Andando sozinha pela rua
Eu me pergunto
O que há de errado comigo?
Nasci em uma família de classe média
De parto natural
Um bebê esperado
Então, me pergunto
O que há de errado comigo?
Estudei em boas escolas
Não sofri abusos
Foi tudo tão normal
Então, me pergunto
O que há de errado comigo?
Não sou santa nem puta
Professo minha fé em mosaicos
Eu sou crer pra ver
Então, me pergunto
O que há de errado comigo?
Não sou feia ao ponto de ser rejeitada
Nem tão linda ao ponto de ficar abitolada
Idealizo meu futuro
Então, me pergunto
O que há de errado comigo?
Espero o carnaval chegar
Na certeza de que ele vai acabar
Espero.....

Ouço Hendrix, The Doors e Black Sabbath
Ouço samba
E não peço mais para o Raul tocar
Então, o que há de errado comigo?


Andando sozinha pela rua
Eu me pergunto
O que há de errado comigo
Sozinha pela rua
O que há de errado comigo?



Andando sozinha pela rua
Visitando lembranças
Me curei do corpo
E minha alma continua mutilada
Então, me pergunto
O que há de errado comigo?
Me tornei moça e mulher no tempo certo
Gosto de meninos que procuram prazer
Juntos, o prazer
Então, me pergunto
O que há de errado comigo?
Cometi minhas poucas justiças
E as injustiças estão no porão
Jurei só por jurar
Então, me pergunto
O que há de errado comigo?
Prefiro os finais infelizes
Sou vilã
Meu escudo me protege
Então, me pergunto
O que há de errado comigo?
Desdenhei de mim mesma
Me autosabotei
Continuei em frente
Então, me pergunto
O que há de errado comigo?
Quebrei regras
Criei as minhas
Sigo a maioria
Então, me pergunto
O que há de errado comigo?

Andando sozinha pela rua
Eu me pergunto
O que há de errado comigo
Sozinha pela rua
O que há de errado?

Sozinha pela rua
O que há de errado?


Sozinha pela rua
O que há de errado?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A grama do vizinho




Numa dessas conversas filosóficas entre eu e minha irmã Pâmela, tomando o café das cinco (café com leite, litros, várias xícaras) aqui em casa comecei a lamuriar e falar que fulana conseguiu um ótimo emprego, iria ganhar muito bem, já estava comprando seu carro...lamuriei de uma colega que eu admirava por ser batalhadora, trabalhar e fazer faculdade (nunca consegui fazer isso), o pai morreu e ela continuou equilibrada dando força à mãe. Falei de outra colega que é super tranqüila, não fica nessa urgência de viver que eu tenho, sair, conhecer gente, dar a volta ao mundo...apesar de bonita e siliconada, não se interessava em tirar carteira de motorista mesmo tendo 33...tão tranqüila. Eu, completei 18 já fazendo aulas de legislação, a emissão do meu título de eleitor data do dia do meu aniversário de 16 anos...tão apressada.   
E assim fui....lamuriando.....lamuriando....e minha irmã me olhando com aqueles olhos verdes a me escutar.
Então ela soltou uma máxima – clichê, mas uma máxima – “Polly, o Nadin (meu cunhado) sempre fala que a gente acha que a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa”. Aí dei um pause. Comecei a refletir.
Tinha uma colega, há uns três anos atrás que tinha um corpo invejável. Cinturinha de pilão, uma bunda sem educação, coxas grossas e bem torneadas. Ela não malhava, só comia besteira e muito. Certo dia, estava eu no quarto dela, ela foi trocar de roupa na minha frente. Putz! Que decepção. Aquela bunda de dar inveja na feiticeira era pura celulite, caída, murcha. Gente! Era muuuuuita celulite.....com uma bunda daquelas eu não colocava nem o maiô que minha vó crente usa quando vai à praia. A cinturinha de pilão vai lá, era verdade. Mas os seios....aqueles seios empinados...era o sutiã. O peito caído, murcho, desanimado.....
Depois lembrei de outro caso. Conheci a família perfeita (não sei se vocês sabem, mas minha família é ultramoderna, pai, mãe, madrasta, enteadas, meia-irmã (o que eu não engulo porque a filha do meu pai com minha madrasta é minha irmã total)). Cheios da nota, era (mesmo os adultos) papai pra cá, mamãe pra lá, amo minha sobrinha, meus irmãos são ultra mega inteligentes, aliás, todos da família eram. Certo dia, numa bebedeira, um dos membros me relatou que desde pequenos o pai e a mãe os obrigavam a chamá-los de papai/mamãe, se chamassem de pai/mãe, eles fingiam que não ouviam e obrigavam a chamar papai/mamãe na frente dos coleguinhas da escola, naquela adolescência bruta que a gente morre de vergonha dos pais. Um dos irmãos teve uma filha com a namorada do outro irmão. E a última confissão: minha mãe nunca me deu um abraço, mas eu tinha que chamar mamãe.
Então, eu concluí (pra não render assunto), a gente sempre acha que o outro está melhor no páreo do que nós. Olhamos sua grama, que por coincidência ou não, sempre fica no quintal do lado de fora da casa, e pensamos que ela é mais verde que a nossa. Depois disso, nunca mais achei ninguém perfeito nem melhor que eu, porque estou muito satisfeita quando entro dentro da minha casa. E minha grama?...aaaa....deixa para os vizinhos olharem...

Jogando a toalha



Hoje não vou fazer nada. Nem olhar o relógio, nem arrumar os travesseiros, nem estender a toalha.  Acho que estou jogando a toalha...

Nem comer tive vontade.

Fui embora chorando, deixei as portas e as cortinas abertas, sem olhar. Esbocei falar a minha verdade. Não tive coragem. Talvez ela seja só minha mesmo...

E então me dei conta que o duro da vida é a vontade castrada. Essa é a verdadeira dureza. E embora nos achemos cheios de nós, cheios de adjetivos e preposições, algum dia nos descobrimos castrados. Penso que agora estou castrada.

E nesse estado de falta todo problema é maior, toda poesia é pior, toda música tem menos ritmo, toda reza tem menos valor. Qualquer caminho vale. Vale o sul, vale o norte e vale não valer.

Vale aceitar e engolir qualquer prato. Qualquer oferta maldita de sorrisos sórdidos cheios de dentes amarelados, embaçados.

Os olhares me engessaram. Estou paralisada de tanta demasia. Estou estagnada de tanta covardia. Estou interpelada por meu juízo que hora me diz que sim, e agora me diz que não.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Procuro



Nas últimas luas tenho me procurado. Não me achei nas anáguas, não me achei nas palavras, não me achei... em alguns lugares, nem sequer procurei.
Nos panos mofados de uma alma em buracos. Buracos de traças. Pequenos, grandes, não importa. Não os vêem.
Acho que não procurei. Preguiça...
Pecado em transe de criança.
Neste tempo achei algumas coisas. Algumas pessoas. Um pouco de perfume...
Muito de dias que eu deixo que me roubem.
É. Talvez não esteja perdida. Talvez esteja roubada.
 Mas, mesmo quando se está roubada... pode-se se procurar.
Procurarei nos pêlos. Nas dobras. Nas obras....
Procurarei no buraco. Por que as traças... as traças não vão me pegar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Dias de algodão



Há dias, e que dias! Desses que a vontade é que a alma se misture com a cama. Uma cama coberta de algodão. Macia, alva, para que não se diferencie alma da cama alva. E nessa ausência de cores, que ninguém nos enxergue: nem cama, nem alma. E que o sol dê sua volta, e que as estrelas marquem sua presença, e que no pensamento se coloque cada coisa em seu lugar. E os sentimentos-pensamentos rumem para seus endereços. Rua, número e não bastando, retornem à cama alva de algodão.
E assim, quem sabe, quando a lua der a sua graça – redonda, grávida, nos retiremos da alva cama e nos misturemos às cores, às flores, às diferenças que espetam servindo de chão para tudo que se dá, que se renova, que causa medo, que leva à cama, dessa vez, quem sabe, apenas de algodão à procura de cores que possam disfarçar.