Pensações

Pensações

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Quero brincar com você de novo




Fiquei mesmo. Desculpe-me o ocorrido. Assumo minha culpa inteira, não porque só a mim ela pertence, mas para não ter que tanto me justificar. 

Foram dias disléxicos. 

Uma demorada transição, o fechamento de um ciclo, uma mudança de gostos - os mais íntimos, os mais entranhados - uma suposta desordem, cem anos, sete dias.

 Eu me molhei desapercebida na chuva, eu estava com fome, eu tive prazos para entregar, eu acordei atrasada, eu não pude perder aquele show...aquele encontro...eu viajei, sim...eu viajei, eu tive insônia...eu não dormi! Eu fui madrinha de casamento, eu fui injustiçada, eu fui mal interpretada, era aniversário da minha mãe, estava muito quente, eu estava muito cheia, eu não queria trabalhar, eu fui perseguida, era o início da dieta, era a visita de minha irmã, era o documentário na tv, fui ao médico, eu fiz um curso, eu fui roubada, estava apaixonada, fiquei doente, troquei os remédios, mudei de casa, eu perdi a coragem, eu não quis me levantar, eu estava com frio, eu estava chorando, eu estava na rua, na night, na noite, no rock, na gandaia, eu estava deliciosamente desocupada, estava bêbada, eu estava eufórica, eu estava sonhando, eu estava afastada, eu estava machucada, eu estava por cima, eu estava sem inspiração.

Não só uma vez, ou duas, ou meia dúzia ou centenas delas, eu lhe olhei. Olhar demorado, olhar de dúvida, olhar de apego e rejeição. 

O que posso lhe dizer, se puder diminuir a sensação de quase nunca mais, é que mais longe estava ainda de mim mesma. 

Perdoe-me, perdoe-me por esse hiato. Afinal, perder-se é humano, reencontrar-se é divino. 

Eis-me aqui novamente.


terça-feira, 6 de maio de 2014

Se vierem, os beija-flores


Cansei de procurar
Desamarrei as botas
Afinal
Não foram apenas sete léguas

Foram primaveras inteiras
Muitas
U m a a p ó s a o u t r a
E no final, só mal me quer



Com sede
Não havia 
Abraços
Beijos
Língua
Suor

Doce ainda me conservo
Mas que venham os beija-flores
Que eu já cansei
De caçar amor

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Não te prometo o infinito





Não só porque seu cheiro vem de longe e fica em mim
Nem por seu prazer desastrado que me satisfaz
Tão pouco pela companhia imensa, que me engole e me aquece
E na madrugada, sinto que minha energia é sua

E meus pelos e abraços
Meus apelos e silêncios
Minha boca em sua língua
Sua língua em mim mesma

E nem que fosse menos
Que fosse pequeno
Não haveria outro jeito
Você me pertence

E de dia, de dor, de quatro
Te traço e te embaraço
Não te prometo o infinito
Só meu corpo...e um pouco mais.

Te amo...Polly


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Chefe de Excursão



Inegavelmente ela nasceu para ser a Chefe da Excursão. Ela nasceu e sabia disso. Nessa viagem impura, que vai dar não se sabe onde, a ela não cabia apenas uma cadeira entre tantas outras. De menina já se sabia diferente. De tão diferente, não se sabia sofrida. Sofrida de sofridão. Não tinha para quem contar, tão pouco com quem contar, então fingia e acreditava. Fingia e acreditava.

Cresceu Chefe da Excursão. Aprendeu todas as lições: ser simpática além do possível, sorrir, ser inteligente além da média, sorrir, escorregar de uma cantada com jeitinho, sorrir, levar uma bronca, sorrir, deixar quem ama nos últimos lugares, sorrir, ser desobedecida, sorrir, engolir sapos, sorrir, não ser ouvida, sorrir, sofrer com a indiferença de alguns, sorrir, perder, sorrir e sorrir também (vide facebook). Mas havia o gratuito de sua existência. O carisma, a confiança, o jeito certo de fazer-se ver, o fácil olhar no olho, o forte aperto de mão, o abraço de dois braços, o enigma que atrai, a impostação adequada da voz, o português correto, a palavra certa, o feeling, a criatividade e o sorriso.

Ela não é falsa, é falsete. Não mente, apenas não conta toda a verdade. 

Só que ser Chefe da Excursão o tempo todo, aprendeu ela agora: cansa. Cansa as pernas e as pernadas, os braços e as braçadas, a face e os sorrisos, os lábios e os beijos, a garganta e os gritos, a coluna e a postura, a cabeça e as cabeçadas. Sendo Chefe da Excursão, perdeu todas as paisagens, não aprendeu o caminho, não teve tempo para o lanche, remoeu amarguras sem ter alguém na poltrona ao lado. Estava de costas para a estrada. 

Mas era a Chefe. E ser chefe tem lá seu glamour, oras. Estar no comando é um prazer, um deleite, pura luxúria para sua alma de superior. Mas superior a quem, já que quando a viagem acabar ela não terá mais função, além de descer na mesma estação que todos? 

Ela vai aprender a ser viajante. Dura lição de ser apenas mais um. Só que mais um aproveita melhor o passeio e ela quer vento no rosto, mãos dadas na poltrona, soninho de viagem, quadros verdes de paisagem, falar baixo...vai sentar no banco, aprender a ser melhor.

O que ela nunca deixará de ser mesmo é viúva de Vinicius, Neruda e Jim e algumas coisinhas mais...

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A falta que eu fiz a mim



Nos últimos anos minha vida tem sido bastante badalada. Mas o engraçado é que o embalo, de fato, acontece na vida dos que me cercam, mas certo é que me atingem profundamente. Tsunamis de alta escala e abalos sísmicos de grandeza maior veem se acumulando em minha alma. Alguns me desfizeram completamente, assim como em Hiroshima.

 Aquele casamento, naquele fim de tarde, pessoas de sangue, a noiva branca, corpo e mente crescidos junto aos meus - naquele momento - pedaços. Custei a entender que não estava perdendo. Meu lado bom sempre me lembrava “é para agregar...é para agregar”. Sofri noites em claro tentando entender porque o tempo nos rouba as pessoas (ainda não entendi que não perdi). 

Depois veio o fato de ser tia. De tão intenso que vivo, ser tia mexeu com minhas vísceras e meu coração. Ser tia me deixou boba, fanática e explodindo de amor. E mais um terremoto se deu. E mais uma vez me segurei nas arestas tortas da minha morada. E assim vou sendo tia de um ser que herdou o olhar de quem não me quer bem. E então, vou entendendo,entre uma taça de vinho e uma madrugada em claro, que nem todas as pessoas que queremos bem terão o mesmo sentimento por nós. É, a psicanalista falou. Tive que concordar. 

De repente, a morte. Ela morreu sem eu dizer: “você é a irmãzinha que eu escolhi aqui na Terra”. Foi embora, sei lá pra onde, ainda não sei bem porquê – nem vou saber. Foi sozinha, foi magra, foi doente, foi jovem e eu, eu a vi uma vez depois da cirurgia...uma única vez, ao acaso. Onde eu estava? O que eu tanto fiz que sequer tive tempo de lhe dar um último beijo na face quente?

Agora casa-se minha grande amiga. As noites de loucura e bruxaria terão um fim na badalada do sim, na próxima sexta. Não, não mais e basta, recolha-se. Não fui à prova do vestido, não fui escolher os doces, não fui sequer conhecer o noivo. Não fui. Não aprendi, eu acho. Não emagreci o suficiente para ficar bem no vestido que escolhi, não clareei mais os cabelos como imaginava, nem na despedida de solteira eu vou. Não há tempo.  

Mas quando haverá?