Pensações

Pensações

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Promoção do Sacolão: policial a uma meiota

Toda quarta e sábado eu compro frutas num pequeno mercado de bairro perto da minha casa. Na quarta-feira, geralmente, eu já saio do trabalho e passo direto lá no Quim*, dono do sacolão, que me conhece desde que eu era pequena, nos tempos que eu podia usar saia mostrando a calcinha com babadinhos de renda e isso significava só uma calcinha com babadinhos de renda.

Quarta-feira as frutas chegam logo no final da tarde e o Mercado vira uma mistura de aromas e cores. Então eu encontro quase sempre as mesmas pessoas, algumas senhoras escolhendo o maracujá, as donas-de-casa olhando as verduras e separando carinhosamente aquele pé de alface verdinho para o almoço de amanhã, um ou outro pai de família pegando uma maçã para a filha, um limão para a caipirinha. Vez ou outra a gente ouve: - Quiim! A mandioca ta sequinha? E o quiabo, ta bom? Eu acho tudo uma delícia.

A esposa do Quim fica no caixa. A balança não para: pesa tomate, pesa mexerica, pesa uva....Sempre que a gente pergunta se alguma fruta ta boa ela logo quer que a gente experimente e prontamente pega uma faca que fica uma num canto aqui, outra num canto lá e já vai descascando, não da nem pra rejeitar.

Numa dessas quartas-feiras eu estava apressada e escolhi rapidinho minhas frutas. Mas como nesse horário lá está sempre cheio, eu não podia esperar para pesar. O Quim vendo minha situação se ofereceu prontamente para levar as frutas na minha casa mais tarde. E assim foi....

Na verdade não foi, porque lá em casa não apareceu nem fruta, nem Quim, nem o menino que eu sempre vejo saindo de lá com uma bicicleta fazendo entrega.

O Mercado sempre fecha as vinte, vinte e uma horas. Na sexta-feira bem de noite fui lá, porque, com certeza, esqueceram da minha encomenda. O Quim estava lá sozinho e ele é do tipo que adora puxar um papo, render uma conversa, e eu já gosto também, então ficamos os dois lá batendo papo e escolhe uma coisinha aqui, outra lá, pesa, ensacola, meia dúzia de ovos: -Ô menina, tem do vermelho. – A não, Quim, eu gosto é do branco mesmo.

- Éee (coçando a cabeça), essa hora é hora das polícia passá aqui. É um tal de filá as coisa aqui no mercadin. Num guento esses guarda!, reclama.
- Ué, eles vêem aqui e pegam as coisas assim, sem mais nem menos?
- É, minha filha. Fazê o quê?

Nem cinco minutos, chega o policial. Farda engomada e cara lavada: - Ô Quim, arruma um copo d’água aí!

Sai correndo o pobre homem, vai debaixo de uma das bancas, tira um litro de cachaça transparente, enche um copo até no gargalo, corre lá atrás do balcão, pega um galão térmico de cinco litros de água e o policial já estava lá fora com aquela cara de político cumprimentado as velhinhas voltando da igreja.

O Quim estende o copo transbordando de cachaça para o guarda que, em serviço (não sei de quem) bebe numa tragada só e ainda pede mais (só que aí era água mesmo, do galão que o Quim ficou segurando pra despistar o pessoal da rua).

Viatura ligada e lá vai embora o carro da polícia que faz a ronda para nossa segurança.

- É Quim, eu vi, viu? Não segurei.
- Pois é minina, é que eu não tenho carteira de moto, sabe?

Da minha noite eu sei falar: fui dormir porque tinha curso no outro dia cedinho. Já a do guarda....não sei....mas deve ter sido mais animada que a minha.

* É claro que o apelido do Quim não é Quim, né gente...

domingo, 29 de agosto de 2010

Entre o ser e a medida

Quem é capaz de desenrolar um carretel, aqueles, da linha bem fina, e traçar a fronteira exata entre o incapaz e o normal, o louco e o são? Caso haja alguém com tal destreza, aviso: não será uma linha reta.

Somos feitos de muitos contornos e oscilações. Uma parte de nós pode alcançar o Himalaia e, logo na próxima medida, afundar no mais profundo dos oceanos.

Não somos isso ou aquilo. Somos muito e pouco, grande e pequeno, cheio e vazio. Tudo ao mesmo tempo.

Que medida é usada para julgar um irresponsável? Qual aparelho mede a dor de uma pessoa? E o amor que ela pode dar?

Quantas noites de amor uma mulher deve ter para nomeá-la vagabunda? E o número exato de mulheres um homem deve ter para ser um cafajeste? Pois é certo que há o cafajeste de uma mulher só e o cavalheiro de muitas.

Onde está a fita métrica que mede a sensibilidade do poeta e o verdadeiro esforço de quem é considerado operário padrão?

Quem é o órgão responsável por dar o selo de qualidade a um ser humano? Podemos ser testados pelo Inmetro?

Onde está a régua da imperfeição e a calculadora do certo? Onde?

Nenhuma teoria de Einstein explicou, Newton não criou sequer o esboço de uma lei para designar quem é quem, porque ninguém é apenas quem, uma parte de ninguém. Somos uma mistura de tudo que não se pode medir.

Julgar uma pessoa, sentenciar destinos é enfiar uma pessoa num pote hermético e socar até que ela caiba, pois para quem julga aquela é a medida certa de outrem.

Quem nesse mundo está habilitado a dizer que Bill Gates, com seus bilhões de dólares é mais feliz que meu avô que mora numa casinha no interior de Santa Catarina, onde as pessoas conversam com os animais e a cidade abriga um mar de águas mansas?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Libido

Iria lhe sorver
Quando meu calor te aquecesse
Cada gota do suor sagrado

Que acontece quando dois corpos se misturam
E se confundem
E se penetram

Todo seu líquido seria meu
E eu...
Com apenas gestos

Em oferenda
Lhe retribuiria
Todas as estradas que meu corpo percorreu.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O verdadeiro lugar do nascimento


“O verdadeiro lugar do nascimento é aquele no qual lançamos um olhar inteligente sobre nós mesmo”.

Essa frase foi enviada pela Juíza Marilena Soares Reis Franco, que sentenciou João Estrella, que teve sua história contada no filme ‘Meu nome não é Johnny’, quando o mesmo recebeu o indulto de natal.

Desde quando vi essa mensagem na estreia do filme, ela me marcou muito.

No meio de suas linhas está implícita a questão do autoboicote. Muitas vezes não nos ajudamos na vida. Muitas vezes não damos a nós mesmos o melhor que podemos. Isso acontece quando estamos infelizes em uma situação e não tomamos atitude alguma para mudá-la, jogando a culpa no mundo porque, assim, fica mais fácil. Acontece, também, quando deixamos de fazer o que tem que ser feito agora, para depois, e ficamos remoendo o não-fazer, gerando culpa. Quando inventamos uma desculpa para não ir à academia ou fugir do regime ou gastamos mais que podemos.

Isso é não utilizar nossa inteligência para cuidarmos de nós mesmos, deixando nosso desejo no meio do caminho e usando artimanhas para nos tirar o foco. Depois, ficamos como vítima e (vem cá) esse lugar é muito confortável.

Então, quando você perceber que está se autoboicotando, lance um olhar inteligente sobre si mesmo e transforme culpa, insatisfação e insegurança em sensação de missão cumprida, orgulho de você mesmo.

sábado, 3 de julho de 2010

Você pode pensar que todo mundo é ganhador até chegar a final.
Ou achar que todos são perdedores até a revelação do fim.
Entre o início e o derradeiro tempo, o que melhor lhe cabe?